Segurança sistêmica é prioridade

João Carlos Mello , presidente da Thymos Energia

Crise hídrica e a abertura do mercado tornam urgente a expansão da matriz energética

A crise hídrica que vivenciamos em 2021, a pior dos últimos 90 anos, tornou ainda mais evidente a necessidade de reforçar a segurança do suprimento de energia elétrica no Brasil. Além da crise em questão, a própria abertura do mercado, tema que abordei no último texto aqui publicado, demanda novas formas de garantir a expansão da matriz energética, visto que o mercado regulado – cujos leilões viabilizam esse crescimento atualmente – tende a diminuir.

Temos acompanhado com otimismo o crescimento contínuo e expressivo de energias renováveis. Esse movimento é extremamente necessário para que o Brasil cumpra seus objetivos de descarbonização. Aliado a isso, devemos considerar que aumento das gerações eólica e solar também contribuem muito com o abastecimento. Durante a escassez hídrica, inclusive, a geração por meio dos ventos bateu sucessivos recordes que proporcionam certo alívio ao sistema. Entretanto, a expansão renovável traz consigo também pontos de atenção. Assim como a geração hídrica, são fontes dependentes de condições climáticas.

Ao planejar o aumento da segurança do sistema, é preciso garantir que o País não ficará no escuro se a natureza nos for desfavorável. A Thymos Energia defende o estudo de medidas de segurança que incluam a ampliação da matriz de fontes despacháveis, ou seja, que podem ser acionadas a qualquer momento, independentemente do clima. Entre essas fontes, destacamos uma possibilidade também renovável: a geração a partir da biomassa, que corresponde a 8% da matriz e possui grande possibilidade de expansão, já que o País é uma potência agroindustrial e há abundância dessa matéria prima.

O Brasil também possui grande oferta de gás natural, combustível muito menos poluente do que o óleo e o carvão, para alimentar usinas térmicas de base – ou seja, com funcionamento mantido regularmente. Esse tipo de usina pode contribuir para a conservação dos níveis dos reservatórios, que há anos não conseguem apresentar recuperação robusta. Para viabilizar essas usinas, é essencial dar continuidade à abertura do mercado de gás natural, garantindo um ambiente de livre contratação do insumo.

Não podemos esperar a situação chegar aos níveis de 2021 para adotar medidas que contribuam com a segurança do suprimento de energia elétrica. Basta lembrar que a hidrologia é um problema que enfrentamos com grande dificuldade nos últimos anos. Não é um desafio pontual. É preciso adotar medidas estruturais para aumentar a segurança e ser mais conservador com os níveis dos reservatórios durante o período úmido. Somente dessa forma é possível vislumbrar, sem sustos, o crescimento do ser elétrico no Brasil.