Crise hídrica: “não podemos relaxar”, afirma Thymos Energia

Brasil Energia

O histórico brasileiro de baixar a guarda quando supera o pior momento de uma crise e as tentações do ano eleitoral que se aproxima têm preocupado os especialistas do setor elétrico que acompanham de perto o desenrolar da atual crise hídrica. Essa preocupação tem um precedente próximo: o desligamento de térmicas em fevereiro deste ano para baixar preços quando os reservatórios ainda estavam vazios, como acabaram ficando ao final do período úmido.

‘Não podemos relaxar e nem apostar em São Pedro’, disse João Carlos Mello, presidente da Thymos Energia, em entrevista ao EnergiaHoje. Mello citou o desligamento de térmicas no verão passado como exemplo do que não se pode repetir, ressaltando a importância de se buscar o reenchimento dos reservatórios das principais hidrelétricas e de não se ficar iludido com as afluências acima do esperado no mês de outubro.

Na semana passada, durante a última edição do Brasil Energia Debates, que vai ao ar a cada 15 dias, sempre às sextas-feiras, os debatedores Leontina Pinto, diretora executiva da Engenho Consultoria, e Nelson Fonseca Leite, professor da FGV e ex-presidente da Abradee, fizeram a mesma advertência quanto à tentação de desligar as térmicas para baixar preços. ‘Não aprendemos com o passado’, resumiu Leite.

A melhoria das afluências em outubro, paralelamente ao alívio que trouxeram para o SIN, com a recuperação de dois pontos percentuais dos reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste (SE/CO) em relação ao dia 01/10 – passaram de 16,62% para 18,56 no dia 03/11, sendo que Furnas, o principal deles, passou de 13,60% para 19,86% -, reacenderam o problema do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), baseado nas afluências, ter começado novembro próximo a R$ 95,00/MWh enquanto as térmicas com custo variável unitário (CVU) acima de mil reais seguem gerando a todo vapor, descasando as liquidações de diferenças do preço real da energia.

‘O PLD está totalmente descolado da realidade’, disse Mello, repetindo um mantra que já se tornou quase unanimidade no setor, insuficiente para que se faça uma correção urgente do problema. O presidente da Thymos Energia lembrou que no começo dos anos 2000 ele trabalhava no Cepel, órgão que desenvolveu os modelos computacionais que balizam a operação e a precificação do setor elétrico, como Newave e Decomp, e que essa função de definir preços não estava na programação inicial.

‘O CMO [Custo Marginal de Operação] era uma derivada’, disse, explicando que se percebeu que dali poderia serem feitos desenvolvimentos, mas não a adoção direta do modelo, como acabou sendo feito. A expectativa do setor é que no pacote de modernização que vem sendo gestado, a distorção seja corrigida.