Crise hídrica se acentua e exige alerta

João Carlos Mello, presidente da Thymos Energia

A crise hídrica, que afeta a capacidade de geração de energia do setor elétrico, agravou-se nos últimos dias e continua sendo fonte de preocupação para os agentes e para os consumidores. O Operador Nacional do Sistema (ONS) anunciou na semana passada que a oferta de energia pode não ser suficiente a partir de outubro, trazendo novamente à tona velhos fantasmas.

O poder público vem tomando medidas cabíveis para amenizar o problema – entre as principais podemos citar o acionamento de geração complementar dentro e fora da ordem de mérito; a importação de energia de países vizinhos; a determinação de  bandeira tarifária vermelha patamar 2 desde junho, que sinaliza ao consumidor a necessidade de economizar energia e arrecada recursos financeiros para cobrir os custos extra da geração termelétrica; a criação da nova bandeira “escassez hídrica” para dar conta da piora do cenário; e o programa  de redução de demanda voluntária definido pela Portaria Nº 22/GM/MME de 23 de agosto de 2021.

Em relação a esse último, vale dizer que a medida é positiva, pois incentiva a redução do consumo e a eficiência energética. Além disso, houve a decisão acertada de reduzir o volume mínimo de 30 MW, proposto anteriormente, para 5 MW no texto da portaria, possibilitando a inclusão de mais consumidores. Direcionar o programa para os eletrointensivos é inteligente porque resulta em um efeito mais rápido na demanda, mas limitar muito o grupo habilitado a fazer parte da medida poderia acarretar em resultados tímidos frente ao tamanho do problema.

No momento atual, muitos consumidores potencialmente aptos não terão condições de aderir ao programa. As empresas estão passando por um momento estratégico de recuperação financeira, com a liberação gradual das atividades após a flexibilização das medidas sanitárias exigidas pela pandemia da covid-19, possibilitadas pelo avanço da vacina. E podem não conseguir suportar, agora, uma nova redução de ritmo. Mas há consumidores interessados, que podem ser uma ajuda crucial neste momento.

Mesmo com as medidas adotadas, há o temor de que a situação se agrave ainda mais. O cenário hidrológico é extremo, com as piores afluências já registradas. Soma-se  a isso ao  retorno da atividade produtiva e a expectativa de reaquecimento da economia que, consequentemente, aumentam a demanda.

O que podemos tirar de lição é que não é preciso esperar a situação se agravar para “economizar” água dos reservatórios. Algumas medidas poderiam ter sido tomadas antes, durante o verão, para que o período seco não se iniciasse com níveis de armazenamento tão baixos. É preciso encarar a hidrologia ruim como um problema constante. Isso inclui tomar medidas estruturais para aumentar a segurança e ser mais conservador com os níveis dos reservatórios durante o período úmido. Só dessa forma é possível garantir o crescimento sustentável do País.