A nova realidade hidrológica

João Carlos Mello, presidente da Thymos Energia

Nas últimas semanas, a crise hídrica tem dominado o noticiário sobre energia e também as conversas entre agentes do setor. A preocupação se deve ao cenário hidrológico extremo que estamos enfrentando: o Sistema Interligado Nacional (SIN) iniciou o período seco, em maio de 2021, com reservatórios das hidrelétricas em níveis muito baixos (44,34%) Agora, no primeira metade de agosto, o SIN registra cerca de 33,24% e o subsistema Sudeste/Centro-Oeste, que corresponde a 70% do armazenamento de água destinado à geração de energia no País, chegou a 24,56%. São números muito baixos, considerando-se que o período de chuvas deve começar somente em dezembro.

Este último verão já é considerado o pior da história em termos de hidrologia. As medidas emergenciais adotas pelo Ministério de Minas e Energia  para aliviar o sistema até o próximo período úmido são positivas e contribuem para a superação dessa conjuntura crítica. No entanto, devemos nos atentar para o fato de que desde 2014 temos enfrentado hidrologia relativamente baixa, com armazenamento inferior a 60%.  Existe o risco dos reservatórios das hidrelétricas  não apresentarem a médio prazo armazenamento alto, confortável, como costumávamos ter no passado – um fator preocupante caso a demanda de energia aumente consideravelmente, impulsionada pela retomada do mercado no pós-pandemia . É preciso pensar em soluções não só para mitigar a crise hídrica de 2021, mas também a longo prazo.

Ao analisar a curva do consumo de energia no Brasil, nota-se um crescimento considerável entre 2009 e 2015. Já no ano de 2016 a crise econômica estagnou a curva, que apresentou crescimento modesto nos anos seguintes, até voltar a cair em 2020 com a crise sanitária. A demanda de energia é o termômetro da economia. Logo, quando o mercado apresentar retomada e estiver reaquecido,  a quantidade de energia necessária para impulsionar o País vai voltar a aumentar.

Felizmente, nossa matriz já muito mais diversificada do que era em 2001, ano marcado por escassez de energia. O avanço das fontes renováveis garantem maior oferta de eletricidade mesmo com a escassez de chuvas. As eólicas, por exemplo, já representam 11% da capacidade instalada e entram agora em seu melhor período produtivo, a “safra dos ventos”. Entretanto, a geração renovável também fica condicionada à natureza, e, se em um momento de alto consumo, o clima não colaborar, as consequências podem ser duras.

Uma das soluções, novamente, surge dos nossos próprios recursos. O Brasil possui uma grande oferta de gás natural, e, além de abundante, o combustível está prestes a se tornar mais competitivo com a abertura do mercado avançando pouco a pouco. É preciso aproveitar esta oportunidade e usar a matéria-prima em uma estratégia para  garantir a segurança energética sem depender de variáveis climáticas. A expansão das renováveis é de extrema importância para uma matriz sustentável, mas precisa ser amparada por fontes complementares que possam assegurar o abastecimento em momentos de alto consumo de energia.

Uma das maiores vantagens deste território continental é o potencial múltiplo de riquezas, o que facilita a aplicação da complementaridade entre as diferentes fontes de geração de energia abundantes aqui. Precisamos aproveitar essa característica ao máximo e dar ao Brasil segurança energética para crescer.