Múltiplas fontes como caminho

Sami Grynwald , diretor da Thymos Energia

As inovações tecnológicas disruptivas ganharam mais espaço durante a crise provocada pela pandemia da Covid-19. As videoconferências viralizaram e foram amplamente adotadas na rotina profissional, na educação e até mesmo para reuniões e comemorações sociais. Algumas empresas e serviços também aprimoraram seus recursos tecnológicos para manter atividades: novas ferramentas permitiram consultas médicas online; a prática de atendimentos online disparou; e a chamada indústria 4.0, que já utilizava big data, inteligência artificial e internet das coisas, entre outas inovações, ganhou ainda mais espaço.

O setor de energia elétrica é historicamente vanguardeiro. Muitas de suas inovações, desde as primeiras descobertas da eletricidade, foram disruptivas também para diversos outros setores e para o cotidiano das populações. Além da tradição arrojada, o setor é fundamental para o desenvolvimento de outros segmentos. Sem energia elétrica, a maior parte das tecnologias atuais e futuras não podem funcionar. Por isso, os desafios são enormes, e apesar de toda a evolução já percorrida, o setor elétrico precisa sempre de evolução e expansão.

O acesso à energia elétrica avançou bastante, tornando-a um recurso comum na maior parte do mundo. Entretanto, continuamos enfrentando problemas de abastecimento e de mercado, provocados por razões climáticas e manutenção de modelos antigos. No caso do Brasil, território com dimensões continentais, a solução para a maior parte dos problemas é uma verdadeira diversificação da matriz elétrica,  ainda majoritariamente hidrelétrica e dependente de um clima favorável. Já avançamos alguns passos no caminho. Até 2003, 79,09% da capacidade de geração elétrica instalada era hidrelétrica. Em 2020, o percentual caiu para 65,9%, seguido das térmicas a combustíveis fósseis, com 11,3%; geradoras eólicas, com 9,2%; térmicas a biomassa, representando 8,3%; energia solar fotovoltaica, com 1,8%; usinas nucleares, com 1,2; e outros com 0,4.

É consenso a necessidade de expansão de energias renováveis que vai além das fontes mais popularizadas: eólica e solar. Em um País com o tamanho do Brasil, acreditamos que seja mais estratégico jogar luz sob o crescimento de diversas fontes, ainda classificadas em gráficos sobre a potência instalada como “outros”.  Na imensidão do Brasil, cada região possui uma característica climática, geográfica e populacional, de forma que a fonte de energia mais adequada para uma localidade é aquela que aproveita os recursos mais abundantes da região.

Outra forma de fortalecer a matriz brasileira é investir na geração descentralizada e próxima ao local de consumo, ou seja, na geração distribuída. A modalidade também proporciona benefícios ambientais e aproveita diferentes recursos. Além disso, reduz perdas no transporte e também diminui a necessidade de investimentos seja de reforço na rede ou ainda de expansão.

Felizmente, com o advento de mais tecnologias disruptivas, surgem cada vez mais opções para geração de energia elétrica. Uma das tendências futuras é a geração híbrida. Essa modalidade proporciona maior segurança de abastecimento e soluciona a intermitência de algumas fontes. Há projetos, por exemplo, que unem energia solar e bateria à base de hidrogênio e lítio. O hidrogênio é um dos combustíveis do futuro, não é poluente e é considerado inesgotável, podendo ser captado inclusive das chuvas.

As opções de geração híbrida são muitas, também é possível combinar as fontes solar e eólica, que se complementam ao longo do dia. A solar só gera energia durante o dia, a eólica, por sua vez, em algumas regiões tem maior geração à noite. As hidrelétricas também podem recebem placas solares, na superfície de seus reservatórios como o caso de Sobradinho. A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) está debatendo formas de viabilizar essa combinação, já que as duas fontes podem ter prazos diferentes de contratos de concessão/autorização.

Outra tecnologia que poderia ser muito bem aproveitada no Brasil, especificamente nos litorais, é a energia maremotriz, gerada a partir do movimento das marés. Há um protótipo com essa fonte no Estado do Ceará e outros exemplos fora do país. Essa tecnologia pode gerar energia em águas profundas ou rasas e pode ser melhor estudada e explorada.

Apesar de muitas vantagens, as novas modalidades de geração de energia elétrica, produção de combustível e armazenamento tem o empecilho do alto custo, adversidade comum à maioria das tecnologias disruptivas. Felizmente, os exemplos da eólica e da solar fotovoltaica demonstram que, com o tempo, os valores ficam mais competitivos. Mas o País não pode esperar apenas a evolução do calendário, é necessário criar políticas  para fomentar a inserção dessas tecnologias e também aumentar o apetite dos investidores, que muitas vezes preferem não arriscar com tecnologias pouco aplicadas.

Acreditamos que a inserção de novas tecnologias disruptivas deve ser acelerada, fomentada concomitantemente a expansão das fontes já bem inseridas no País. Não é preciso esperar esgotar o potencial de crescimento de um recurso para introduzir outro. Usar justamente a diversidade geográfica do Brasil ao seu favor, adotando-se diferentes soluções de acordo com a característica de cada região, seria bastante positivo para o desenvolvimento energético. Uma matriz elétrica bastante diversificada torna o abastecimento de energia mais seguro e, com o tempo, o insumo fica mais competitivo.