Hora de olhar para o futuro

João Carlos Mello , presidente da Thymos Energia

O País caminha, ainda que lentamente, para uma retomada da economia. Após a recessão causada pela pandemia da covid-19, agora é hora de colocar o futuro no radar. O processo de abertura do isolamento social adotado começou em diversos Estados. O consumo de energia elétrica, um dos termômetros da atividade produtiva, vai refletir essa nova realidade. Analisamos o comportamento desse consumo em diversos países, como Itália, França e Estados Unidos, que apresentaram retomada na utilização de energia após o fim da quarentena, sendo que o último registrou até crescimento no mês de junho de 2020 em relação ao mesmo período em 2019. Cada nação tem suas especificidades, mas as experiências de outros lugares do mundo demonstram que logo após o fim do isolamento já pode haver sinais de retomada.

A Thymos Energia fez uma projeção para o consumo de energia elétrica que se aproxima da estimativa do Operador Nacional do Sistema (ONS): recuo em 2020 de 3,7% em relação a 2019 e crescimento em 2021 de 3,9%. Também calculamos um cenário mais otimista. Se o Poder Executivo e o Congresso adotarem uma agenda positiva nesse segundo semestre, dando continuidade ao importante processo de modernização do setor elétrico e fomentando a recuperação econômica, o recuo de 2020 pode ser de apenas 2,7% e o crescimento em 2021, de 7,3%, formando uma curva em “V”.

Entretanto, mesmo que todas as estimativas projetem crescimento em 2021, o consumo será menor do que aquele projetado pelo ONS antes da pandemia. Portanto, a sobrecontratação das distribuidoras nos próximos anos é um fato, visto que contratos de compra de energia foram firmados antes da crise sanitária. O percentual de sobrecontratação pode atingir 18% em 2020 e 7% em 2021. Esse é um dos principais desafios que o setor elétrico herdará como consequência da crise que enfrentamos este ano. Para solucionar o problema da sobra de energia das distribuidoras, será preciso encará-lo  de forma objetiva e pensar em uma regulação econômica adequada para as distribuidoras, evitando a formação de um prejuízo enorme.

Um impacto tarifário elevado foi evitado de forma ágil com a adoção da Conta-covid, diluindo a prejuízo obtido em 2020 em pagamentos parcelados para os próximos anos. Agora, é pensar em medidas que evitem aumentos das tarifas expressivos gerados pela sobrecontratação. Sem dúvida, se a retomada acontecer de acordo com a curva em “V”, e não de forma mais lenta, o problema da sobra de energia terá consequências menos alarmantes. A velocidade da retomada da economia é o principal fator de influência na curva do consumo de energia elétrica e também no desenvolvimento de outros setores, por isso, as medidas econômicas adotas ainda em 2020 e 2021 serão fundamentais.

É essencial que o governo retome o processo de modernização do setor elétrico logo que seja possível. Entre as principais medidas propostas para a modernização, destacamos a adoção de novas práticas para os leilões de energia, que provavelmente terão demanda menor nas próximas edições, por conta da sobrecontratação. Também recomendamos a separação entre lastro e energia,  que pode fomentar a abertura do mercado livre e diminuir o custo de operação do Sistema Interligado Nacional (SIN).

Concomitantemente à reforma do setor, é preciso dar continuidade aos processos de desestatizações que ficaram pendentes. A mais aguardada é a da Eletrobras, que precisa recuperar sua força para ter novamente capacidade de atrair investimentos e contribuir para a expansão da matriz. Mas também há várias distribuidoras do País que estão incluídas em planos de desestatização e podem atrair investidores. E, ainda, outras estatais no plano de desestatização, que não estão ligadas ao setor elétrico.

Outro fator que pode influenciar no reaquecimento da economia e beneficiar o setor elétrico é a aprovação da Lei do Gás, o PL 6407/13 (de diretrizes para a abertura do mercado), que pode facilitar a integração entre os mercados de energia e gás. Mais um benefício do Novo Mercado de Gás é a possibilidade de o combustível ficar mais competitivo;, ele representa boa parte do custo de diversos setores industriais, então, seu preço pode influenciar no aquecimento da atividade industrial.

Acelerar o andamento de todas essas medidas será determinante para a velocidade da recuperação econômica do País. A agenda do primeiro semestre foi toda comprometida para priorizar a mitigação dos impactos da covid-19. Agora, precisamos recolocar o País nos trilhos e recuperar o tempo perdido.