Haverá tempo para avançar

João Carlos Mello , presidente da Thymos Energia

O ano de 2020 será, em sua maior parte, um período para mitigarmos os impactos da maior crise sanitária do século. A pandemia da Covid-19 causou uma queda acentuada na demanda, retirou equipes do trabalho de campo e afetou o cronograma de processos fundamentais, como a modernização do setor elétrico e a estruturação do Novo Mercado de Gás. Entretanto, apesar de atrasos, não será um ano perdido como temem os mais pessimistas.

No início da pandemia, a Thymos realizou um estudo com estimativas para o consumo anual em 2020. A consultoria analisou os impactos da crise em países que já estavam adotando isolamento social para conter a Covid-19 e fez projeções considerando quatro cenários principais: otimista, moderado, pessimista e catastrófico. Após mais de um mês decorrido da realização desse estudo, analisamos que o caminho mais provável é o do cenário moderado, cuja previsão de redução do consumo anual é de até 4%, em relação a 2019. Apesar de uma queda no consumo de 13% registrada em abril pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), esperamos que o consumo de energia se recupere já durante o segundo semestre, deixando a média anual um pouco mais próxima do ano passado.

Além disso, projetos de lei como o PL 3975/2019, o PL 232/2016 e o PL 5877/2019 vem se provando fundamentais para a recuperação econômica e o País terá a oportunidade de fazê-los avançar no pós-crise. Para as questões que envolvem debate complexo, o momento de menor consumo também pode significar menos pressão, um tempo a mais para elaborar planejamentos e discutir as próximas etapas rumo à abertura de mercado e à solução de problemas estruturais.

Uma das primeiras agendas a ser retomada é a dos leilões. Os certames agendados para o primeiro semestre de 2020 foram adiados, ainda sem previsão de nova data. A prorrogação foi acertada, realizar os leilões durante o isolamento social prejudicaria a realização de avaliações e a elaboração de projetos competitivos. Entretanto, não consideramos prudente esperar 2021 – esperamos que sua realização aconteça ainda no último trimestre, pois delongas excessivas poderiam prejudicar o prazo de implantação dos projetos e o atendimento à demanda, que pode retomar o crescimento já no ano que vem.

O cumprimento da maior parte da agenda setorial de 2020 no segundo semestre é possível e pode contribuir para dinamizar o setor, atrair investimentos estrangeiros ao País, destravar a economia e estimular o setor produtivo. Não temos tempo a perder! Assim que houver condições para sairmos do isolamento social, o trabalho terá de ser intensificado para que 2020 seja, pelo menos em parte, um ano produtivo, e a crise da Covid-19 seja superada e deixada para trás.