Energia para o mundo 4.0

Alexandre Viana , sócio e diretor da Thymos Energia

A digitalização está no centro das grandes transformações econômicas. Novas tecnologias envolvendo big data, inteligência artificial e as redes 5G prometem mudanças tão profundas a ponto de Klaus Schawb, economista e presidente do Fórum Econômico Mundial, considerá-las a “quarta revolução industrial”.

A automação de redes, com sistemas complexos interconectando as mais diversas variáveis, são elemento fundamental de projetos urbanísticos como as smart cities – e também terão impactos diretos na vida cotidiana, com a Internet das Coisas (IoT) invadindo o ambiente doméstico. O futuro digital será ubíquo e pervasivo. E praticamente tudo o que é digital é elétrico.

Não há como imaginar que haja longevidade, portanto, ao modelo atual, verticalizado e centralizado, do setor elétrico brasileiro. As mudanças já estão em curso, com o processo de modernização setorial, e apontam a direção de uma rede elétrica descentralizada e flexível. A revolução, todavia, será mais profunda, conceitual, e atende pelo nome de Energy-as-a-Service.

Esse conceito, que já transformou as indústrias de software, mobilidade urbana, hotelaria e outras, também chegará ao setor de energia. Geralmente, agrupam-se em um pacote diferentes produtos, funcionalidades ou etapas de serviços que antes eram vendidas separadamente. Os contratos são por assinatura e o foco é nos resultados. Os provedores de serviços articulam uma miríade de fornecedores e financiam os custos iniciais; com apoio em dados, estudam o comportamento dos consumidores e adaptam os serviços de acordo com suas necessidades.

O setor de telefonia é pródigo em exemplos. Linhas de telefone fixo já foram um bem disputado e de difícil acesso. Até a abertura do mercado, nos anos 1990, havia um provedor por estado e quando os primeiros celulares chegaram, uma linha móvel podia demorar meses para ser liberada. Hoje, os consumidores não compram “linhas” e sim pacotes de serviços, nos quais a linha pode estar incluída ou não. Além das ligações telefônicas, há pacotes de dados, de TV à cabo, serviços especiais para streamming e muitas outras opções a serem contratadas conforme a necessidade do usuário. E uma pessoa com um pacote de dados mais robusto por transferir créditos para outra que, eventualmente, esteja sem.

Àqueles que ainda resistem às modalidades de geração de energia elétrica mais descentralizadas, como a GD (geração distribuída, com os painéis solares em residências), a ideia de que um consumidor possa “emprestar” para outro parte de seus créditos de energia elétrica, usando um app no celular, pode parecer ficção – mas é disso mesmo que estamos falando no conceito EaaS. O consumidor estará no centro das atenções e terá papel ativo na escolha de fontes energéticas, no gerenciamento do seu consumo e na escolha de alternativas que se adaptem às suas necessidades, levando em conta, talvez, sua casa inteligente, seu carro elétrico ou seus sistemas próprios de microgeração.

O conceito de Energy-as-a-Service (EaaS) combina hardware, software e serviços como gestão da demanda e eficiência energética, além de facilitar a adoção de energias renováveis e outras fontes de abastecimento descentralizadas, como as baterias, de forma simples e intuitiva. Na prática, isso significa unir infraestrutura física, digital e de comunicação – com diferentes players atuando de forma articulada, como geradores, concessionárias de energia; empresas de tecnologia; grandes corporações de petróleo e gás; fornecedores especializados de energias renováveis; telecomunicações e start-ups. Aprimoramento e sincronização das regulações em setores distintos, como elétrico e de telecom, serão um desafio à parte, que poderá acelerar ou retardar a entrada no Brasil no novo mercado.

Ainda estamos dando os primeiros passos para essa nova realidade. O surgimento das empresas especializadas em eficiência energética, as chamadas ESCO (sigla em inglês para Energy Service Company), que oferecem soluções para redução de custos e são remuneradas pela economia gerada, foi um degrau desse processo.

Novos avanços virão conforme algumas tendências se consolidem. Um relatório sobre EaaS publicado no final do ano passado pela Deloitte destaca os principais elementos dessa equação: a expansão da geração distribuída com fontes renováveis, a adoção de tecnologias conectivas e smart, eficientização energética de edificações, armazenamento, abertura de mercado, big data e a criação de mercados locais e regionais de energia.

Segundo a Delloite, houve um salto em novos investimentos em recursos de energia distribuída – aquela gerada próximo ou junto ao local de consumo. Os valores passaram de US$ 46 bilhões em 2004 para US$ 279 bilhões em 2017. E neste montante não estão incluídas apenas a as fontes solar, eólica, hídrica e biomassa, mais consolidadas no Brasil e nomundo, mas também transformação de resíduos em eletricidade e combustível, a energia geotérmica, armazenamento em pequena escala, entre outras possibilidades. Por aqui, a potência instala em GD dobrou este ano, passando de 2 GW (registrados no fim de 2019) para 4,3 GW em dezembro de 2020.

Para que as diferentes modalidades de geração sejam compartilhadas e administradas de forma coletiva, será necessária uma “rede inteligente”, que envolve um grande projeto de TI.  As tecnologias avançadas de comunicação começam com os medidores inteligentes, mas também incluem LTE e 5G privados; blockchain; Inteligência Artificial (IA) e machine learning; plataformas de big data com computação em nuvem; ciber-segurança; e recursos como conectores bidirecionais para energia e informações.

Com o uso crescente de energias renováveis, há uma variabilidade de carga muito maior e um potencial de instabilidade da rede. O planejamento energético terá papel fundamental. Além disso, o armazenamento em larga escala será uma ferramenta importante para a operação do sistema, contribuindo com o nivelamento de carga, a regulação de frequência e a integração de energias renováveis à rede. Uma estrutura robusta de armazenamento poderá ser usada até mesmo na arbitragem de preços.

O novo modelo contará com mercados em escala – desde o atacado, em nível nacional, até as negociações locais, entre condomínios, pequenos geradores e consumidores em geral. Muitas dessas negociações serão realizadas por meio de aplicativos ou outros sistemas intuitivos, de fácil acesso para qualquer cidadão.

As tecnologias necessárias para viabilizar esse sistema descentralizado e garantir a segurança de abastecimento são sofisticadas e algumas ainda estão em processo de desenvolvimento. Mesmo assim, não estamos falando de um futuro distante. A transformação já está em curso e as empresas que esperam continuar relevantes terão de abraçar a TI, a começar pelo uso de dados e de novas tecnologias. Os consumidores já buscam por novos produtos e serviços, por soluções personalizadas e combinadas. É hora de aproveitar as oportunidades e caminhar junto com a evolução.