Desdobramentos da crise

João Carlos Mello , presidente da Thymos Energia

Ainda não é possível calcular o quanto a pandemia da Covid-19 impactará o mercado e as tarifas de energia do ano que vem e dos próximos. Já sabemos que, durante a quarentena, houve queda no consumo de cerca de 11%, segundo a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). A carga, por sua vez, registrou consumo cerca de 12% menor em abril e maio em relação a 2019. Também já foi divulgado um valor máximo para o empréstimo a ser concedido para as distribuidoras de energia, a Conta Covid, de R$16 bilhões.

Entretanto, ainda perduram muitas dúvidas sobre a duração do isolamento adotado para a contenção da doença em diversos locais do País, em maior ou menor grau – bem como incertezas sobre o ritmo e as prioridades a serem estabelecidas no afrouxamento deste isolamento em cada cidade. As diferentes regiões do Brasil registram um cenário de contaminação específico e possuem necessidades econômicas diferentes, de forma que não há uma unificação dos processos de abertura.

A crise sanitária causou impactos profundos, prejuízos em diversos segmentos e aumento do desemprego. Essas consequências precisam ser enfrentadas com firmeza no período de retomada, por meio de estímulos às atividades produtivas e atração de investimentos para o País. Sabemos que o consumo de energia é um termômetro da conjuntura econômica – portanto, os índices de utilização de energia não voltarão ao normal tão logo acabem as restrições de contato social. Mas a expectativa é de que essa recuperação aconteça ao longo dos próximos dois anos.

Estimamos que somente em 2022 a carga possa voltar aos índices “normais” de crescimento, próximos aos esperados antes da crise. Há previsões mais pessimistas no mercado, que esperam normalidade apenas em 2025. Nossa estimativa, de certa forma otimista, tem como base a evolução das reformas estruturais, realizadas há pouco tempo no Brasil, como a reforma da previdência e a trabalhista, e também a disposição do Governo em tornar o País atrativo ao capital internacional. Durante a pandemia assistimos ao aumento dos gastos públicos; no pós-covid, o investimento privado será fundamental para uma retomada sustentável.

A energia elétrica é um insumo essencial. Conforme os diversos setores econômicos forem se restabelecendo, o consumo de energia será um dos primeiros indicadores a sentir os efeitos. Além disso, temos um setor que está em processo de modernização e abertura. Essa agenda torna-se ainda mais importante no contexto da crise, pois tende a tornar o setor elétrico um ambiente ainda mais propício para investimentos estrangeiros – que podem se beneficiar também do dólar valorizado. Precisamos seguir em frente e fazer com que os avanços em nosso setor continuem acontecendo, e desdobrando-se em benefícios para todos os demais setores da economia.