A energia que vem do lixo

Sami Grynwald , diretor da Thymos Energia

O marco legal do saneamento recentemente aprovado, determina que todos os municípios devem apresentar um plano para acabar com os lixões até o último dia deste ano, incluindo a forma como obterão recursos para isto. A partir do segundo semestre do próximo ano, começa a vencer o prazo para que as cidades, escalonadamente, de acordo com o número de habitantes, resolvam a questão.

O uso de resíduos sólidos urbanos (RSU) para gerar energia é uma tecnologia que vem avançando a passos largos em diversos países, especialmente os desenvolvidos. Japão, China e Estados Unidos, além de vários países da Europa lideram o aproveitamento de lixo na geração de energia. A Suécia, por exemplo, usa mais de 90% do lixo produzido por seus cidadãos para reciclagem e geração de energia. A transformação de lixo em energia é fundamental para a gestão sustentável de resíduos, complementar à reciclagem. E consiste também em mais uma alternativa para diversificar a matriz elétrica, ao lado de fontes que estão em franca expansão, como solar e eólica.

O Brasil ainda está num estágio muito inicial, com quatro projetos em andamento para o tratamento térmico de resíduos para geração de energia. Se somente 30% dos resíduos sólidos urbanos (RSU) fossem destinados a usinas waste-to-energy (WtE) poderíamos produzir energia para atender 3,3% da demanda nacional, de acordo com a Associação Brasileira de Recuperação Energética – ABREN. Quantidade suficiente para atender o consumo do Estado de Pernambuco, por exemplo. O aproveitamento integral dos resíduos na geração de energia pode chegar a 4 GW médio, o que equivale à soma das garantias fixas de energia (GF) das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, duas das maiores usinas do país, e à mais de 6% da demanda atual.

No mundo há cerca de 2,5 mil usinas WtE com capacidade para processar 368 milhões de toneladas de resíduos urbanos por ano. De acordo com as projeções, o Brasil, que hoje produz quase 80 milhões de toneladas anuais, chegará a 100 milhões na próxima década. Deste total, dois terços vão para aterros sanitários e um terço para lixões ou aterros controlados que na maioria não previnem emissões líquidas e gasosas que causam prejuízo ao meio ambiente.

O aproveitamento dos RSU poderiam atrair investimentos de mais de R$ 11 bilhões em infraestrutura, conforme estimativa da Climate Ronds Initiative (CBI). A quantia poderia ser ainda maior, já que além dos RSU, o país tem um volume considerável de resíduos gerados na agroindústria. Além de evitar a poluição e os problemas de saúde causados pelos resíduos que não recebem tratamento adequado, o investimento incentivaria a ampliação do serviço de coleta. Atualmente, um em cada 12 brasileiros não dispõe de coleta. Precisamos de um esforço coletivo para podermos aproveitar a energia desperdiçada no lixo.