Renovável mais barata

João Carlos Mello , presidente da Thymos Energia

Nesta semana, a BloombergNEF (BNEF) publicou resultados de uma análise que posiciona a solar fotovoltaica e a eólica como as fontes mais baratas para novos projetos de geração de energia em pelo menos dois terços do planeta. Segundo o relatório da BNEF, o preço médio da energia eólica caiu 9%, enquanto a energia solar fotovoltaica caiu 4%. O estudo também destaca que os menores preços registrados são no Brasil, Estados Unidos e China.

Em paralelo à divulgação desses números, a Agência Internacional de Energia Renováveis (IRENA), ao lado de outras entidades do setor, emitiu comunicado sugerindo que agentes políticos priorizem energias limpas nas ações de planejamento para recuperação econômica do País quando passar a pandemia da Covid-19.

A queda nos valores das renováveis já era observada nos últimos leilões brasileiros. Mas a expectativa nacional é de que fontes tradicionais, como o gás natural, também ganhem competitividade nos próximos anos. A pandemia provocou drástica redução nos preços de derivados de petróleo e os estoques devem manter os valores baixos nesse mercado por algum tempo – embora a expectativa mundial seja de recuperação dos preços no médio prazo. No Brasil, entretanto, a expectativa é de uma redução permanente do preço do gás natural com a abertura do mercado, que vem se estruturando no programa do “Novo Mercado de Gás”, lançado pelo Governo Federal. Portanto, a retomada econômica pós Covid-19 contará com opções variadas de fontes energéticas com valores competitivos.

O período da retomada será um momento ímpar para investirmos em diversificação da matriz e complementaridade das fontes. Afinal, o preço não deve ser o único critério na hora de definir os rumos da expansão da matriz elétrica brasileira. Cabe levar em conta as características das próprias fontes e a segurança do abastecimento contínuo e com qualidade.  As energias renováveis não-hídricas são fundamentais para a manutenção de uma matriz exemplar em termos de emissão de gases de efeito estufa, como a que temos hoje. Também possuem a vantagem de advir de recursos ilimitados. Entretanto, possuem uma característica adversa que não há como reverter: a intermitência. A natureza define a intensidade de geração de energia em cada horário, o que pode coincidir ou não com os períodos de maior demanda.

Há duas formas de mitigar esse risco de insuficiência no fornecimento de energia. Uma delas é o armazenamento, que ainda possui altos custos, embora o estudo da BNEF também aponte uma queda nos preços de baterias. O futuro pode oferecer grandes alternativas nesse sentido. No presente, seria necessária uma enorme, complexa e dispendiosa estrutura de armazenamento para conferir segurança ao sistema.

Atualmente, a forma mais estratégica de evitar problemas de abastecimento é manter a matriz suficientemente diversificada. As usinas solares e eólicas devem ser complementadas com usinas hídricas e térmicas, despacháveis, preferencialmente a gás natural, insumo abundante do País e menos poluente que outros combustíveis. Com essa variedade, é possível aproveitar as melhores características de cada fonte.

As soluções mais sustentáveis para a geração de energia e para a descarbonização da economia em geral passam por escolhas equilibradas, que garantam avanços em termos ambientais, capacidade de atendimento à demanda e, na retomada pós-crise do Convid-19, preços capazes de estimular as atividades econômicas que irão reerguer o País, gerando e mantendo empregos.